Durante muito tempo, uma fotografia do século XIX circulou em publicações brasileiras como se retratasse José Theodoro de Souza, personagem central da ocupação do sertão paulista e do Vale do Paranapanema.
A imagem parecia convincente. Nela, quatro homens aparecem em trajes de campo, armados, com botas, chapéus e equipamentos compatíveis com expedições do século XIX. O homem sentado ao centro acabou sendo identificado, em algumas obras brasileiras, como José Theodoro de Souza, acompanhado de um filho e de jagunços.
Foi assim que a fotografia passou a integrar a construção visual de um personagem cercado por lendas, controvérsias e memórias da expansão pelo sertão.
No livro Tavares Terra, registrei essa questão ao tratar justamente da dificuldade de separar documento, tradição e mitificação. A obra menciona que a imagem foi reproduzida em Memória do Legislativo Paraguaçuense e depois utilizada na capa de Razias, de Celso Prado. Mais tarde, o próprio Prado reconheceu que a atribuição estava errada.
A identificação correta
A fotografia original traz uma legenda inequívoca:
“The Field Party of 1864”
E identifica nominalmente os quatro homens retratados:
James T. Gardiner, Richard Cotter, William H. Brewer e Clarence King.
O homem sentado ao centro, confundido com José Theodoro de Souza, era na verdade William Henry Brewer.
Brewer participou, entre 1860 e 1864, da primeira pesquisa geológica oficial da Califórnia, integrando a equipe do geólogo Josiah Dwight Whitney. Depois, tornou-se professor em Yale.
Portanto, a fotografia não foi produzida em Botucatu, no Paranapanema ou em qualquer ponto do sertão paulista.
Ela pertence ao contexto da California Geological Survey, nos Estados Unidos, e registra uma equipe de campo em 1864.
Como o erro se consolidou
Esse tipo de equívoco é mais comum do que parece.
Uma fotografia recebe uma legenda incorreta. Depois, essa legenda é reproduzida em outro livro. A nova obra passa a servir de fonte para uma terceira. Em pouco tempo, a imagem ganha autoridade apenas porque foi repetida muitas vezes.
No caso de José Theodoro, a fotografia encaixava-se perfeitamente no imaginário criado em torno dele: sertão, armas, homens de campo, expedições e conquista territorial.
Mas aparência não é prova.
A própria pesquisa iconográfica mostrou que a imagem pertencia a outro país, outro grupo e outra história.
Há ainda uma curiosidade adicional: a mesma fotografia foi utilizada na capa de uma edição norte-americana de The Great Diamond Hoax and Other Stirring Incidents in the Life of Asbury Harpending, publicada pela Library of Alexandria.
Isso torna o episódio ainda mais revelador. A fotografia que, no Brasil, foi lida como registro do sertão paulista, já circulava em outro contexto editorial ligado à história do oeste norte-americano.
O que essa descoberta ensina
O caso é pequeno, mas metodologicamente importante.
Fotografias também são documentos históricos.
Por isso, precisam ser submetidas às mesmas perguntas que fazemos a uma escritura, um inventário, um registro paroquial ou uma carta:
Quem produziu a imagem? Quando? Onde? Quem aparece nela? Qual é a identificação mais antiga conhecida?
Em Tavares Terra, a fotografia atribuída a José Theodoro tornou-se um bom exemplo de como a memória pode se construir também por meio de erros de identificação.
A conclusão é simples, mas importante:
essa fotografia não mostra José Theodoro de Souza.
Mostra a equipe de campo da Califórnia de 1864, com William H. Brewer sentado ao centro.
E talvez ainda não conheçamos, por meio de uma fotografia autenticada, o verdadeiro rosto de José Theodoro.
Para a pesquisa histórica, isso não é uma frustração.
É parte do próprio trabalho.
Às vezes, corrigir uma imagem errada é tão importante quanto encontrar um documento novo.
Palavras-chave relacionadas
José Theodoro de Souza, fotografia histórica, William H. Brewer, sertão paulista, Vale do Paranapanema, Tavares Terra, pesquisa histórica, genealogia, iconografia histórica


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