A pesquisa para o livro Tavares Terra continua revelando novas pistas documentais sobre a presença mineira no sertão paulista. Nesta rodada, o destaque é o levantamento realizado pelo historiador Manoel Lelo Bellotto nos arquivos de São Pedro do Turvo, que registra documentos diretamente relacionados a José Theodoro de Souza.

1. Bellotto — Arrolamento das fontes históricas do município de São Pedro do Turvo e região circunvizinha

Instituição: Revista de História da USP.
Documento original: Manoel Lelo Bellotto, 1967.
Disponibilização: o artigo é antigo, mas o PDF voltou a ser diretamente recuperável/indexado na plataforma da USP; a busca registra o arquivo digital como publicado/reprocessado recentemente. A página institucional confirma autoria, DOI, edição e acesso aberto. (Portal de Revistas da USP)

Abrir o PDF na Revista de História da USP

O que há de realmente novo para nossa pesquisa: Bellotto não apenas narra a história regional. Ele fez, nos anos 1960, um levantamento presencial dos documentos primários existentes nos arquivos de São Pedro do Turvo. E encontrou um processo avulso contendo documentos diretamente relacionados a José Theodoro.

O primeiro é uma transcrição da escritura de 27 de abril de 1852, pela qual José Theodoro de Souza e Francisca Leite da Silva doaram terras entre o rio São João e o ribeirão São Pedro para a construção da capela de São João Batista. Há um detalhe arquivístico excelente: Bellotto informa que essa transcrição fora feita por Ananias Augusto César de Menezes, escriturário do tabelionato de São João da Boa Vista, em 7 de novembro de 1891.

Por que importa: agora temos uma trilha documental muito precisa para procurar o original ou traslado: Cartório de Paz da Freguesia de São João da Boa Vista do Jaguari → 27/04/1852 → traslado/transcrição de 07/11/1891. O artigo inclusive preserva parte da descrição dos limites da terra doada.

Pergunta que pode responder: onde estava José Theodoro documentalmente em abril de 1852 e que território ele afirmava possuir naquele momento?


2. Escritura de ratificação envolvendo Anna Luíza de Jesus — 12 de maio de 1880

Este é, para mim, o achado mais interessante da rodada.

Dentro daquele mesmo processo avulso, Bellotto encontrou outra escritura:

“Escritura de ratificação de troca de terrenos” — Santa Cruz do Rio Pardo, Comarca de Lençóis Paulista, 12/05/1880.

As partes indicadas são D. Anna Luíza de Jesus, Antônio Ignácio Pinto e sua mulher. E Bellotto chama expressamente a atenção para o fato de que Anna Luíza se declara procuradora de seu falecido marido, José Theodoro de Souza.

Instituição que disponibiliza a referência: USP; o documento original estava, quando Bellotto realizou o levantamento, no arquivo municipal de São Pedro do Turvo.

Data: 12 de maio de 1880.

Consultar a descrição documental no levantamento da USP

Classificação: EVIDÊNCIA CONFIRMADA quanto à existência da escritura no levantamento de Bellotto; PISTA A VERIFICAR quanto ao conteúdo integral, porque ainda não temos a imagem do instrumento original.

Por que importa: esse documento pode ser muito mais útil do que parece. Uma escritura de ratificação de troca de terrenos pode fornecer origem da propriedade, confrontantes, escrituras anteriores, localização, cadeia dominial e procurações. Como Anna Luíza age vinculada ao falecido José Theodoro de Souza, o instrumento pode iluminar justamente o destino das terras depois de sua morte.

Pergunta de pesquisa: quais terras de José Theodoro ainda estavam sendo negociadas ou regularizadas em 1880 e qual era a posição jurídica de Anna Luíza de Jesus nessa cadeia patrimonial?


Um terceiro resultado que merece entrar no caderno de pesquisa, mas não como “nova fonte”

O levantamento de Bellotto registra com precisão os fundos documentais que existiam em São Pedro do Turvo e que podem atingir diretamente os descendentes das famílias estudadas. O arquivo paroquial possuía livros de batismos desde 20/05/1875, casamentos desde 15/02/1876 e óbitos desde 15/11/1882. O cartório civil possuía nascimentos desde 1889, casamentos desde 1890 e óbitos desde 1889; e o tabelionato conservava livros de notas desde 22/02/1883.

Não classifico isso como uma terceira descoberta documental, porque já localizamos esses livros digitalizados no FamilySearch. É, porém, um mapa arquivístico de altíssimo valor onde procurei os Tavares Terra e os Theodoro na geração seguinte.

Resultado adicional da busca em Minas

Também encontrei no índice digital do Arquivo Público Mineiro um Elias Tavares da Cunha, registrado em Sant’Anna do Sapucahy, documento TP-1-093, p. 35, de 18/03/1856. O índice oficial confirma nome, localidade, código e data. (Arquivo Público Mineiro)

Consultar o índice do Arquivo Público Mineiro

Entretanto, não o estou incluindo na shortlist como membro da família. Neste momento existe apenas coincidência de sobrenome e região. Não encontrei evidência que permita relacioná-lo a Bernardo Tavares da Cunha ou aos Tavares Terra. Portanto:

Classificação: PISTA A VERIFICAR — sem vínculo genealógico estabelecido.

Há, contudo, uma razão para guardarmos esse nome: uma indexação independente de inventários mineiros registra Maria Francisca Cunha / Elias Tavares da Cunha, Pouso Alegre, 1858. (Origines) Isso justifica investigar o personagem, mas não autoriza ainda qualquer inclusão na árvore genealógica.

Cada novo documento ajuda a substituir generalizações por nomes, datas, parentescos e propriedades concretas, permitindo compreender melhor a diáspora mineira e a formação histórica do Vale do Paranapanema.

José Theodoro de Souza e o sertão do Paranapanema
José Theodoro de Souza e o sertão do Paranapanema

Henrique Chagas

Henrique Chagas, palestrante, instrutor, mediador de conhecimentos, escritor, advogado e gestor na área jurídica. Cursou pós-graduação em Direito Civil e Direito Processual Civil e fez MBA em Direito Empresarial pela FGV. Leia mais em "Sobre Mim".

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