Em Terra Prometida: A volta de Ulisses, Henrique Chagas transforma o regresso ao lugar de origem em uma investigação sobre memória, desejo e pertencimento. Depois de atravessar guerras, fronteiras e perdas, Ulisses Tavares Terra retorna ao Pontal do Paranapanema trazendo uma câmera, cadernos e experiências que resistem à explicação. A terra reencontrada confronta o viajante com uma dificuldade íntima: reconhecer o que ainda pode construir quando o passado já não pode ser restituído.

Compre Terra Prometida: A volta de Ulisses na UICLAP

O diálogo com a Odisseia, de Homero, constitui uma das linhas fundamentais do romance. O nome do protagonista anuncia essa aproximação, desenvolvida na errância, nas provações e na expectativa do retorno. Henrique, porém, preserva a autonomia de sua narrativa. O Pontal tem história, conflitos e habitantes cujas necessidades ultrapassam o destino do homem que regressa. Voltar exige de Ulisses uma revisão do lugar que atribui a si mesmo na vida dos outros.

Essa dimensão aproxima o romance da tradição brasileira em que a paisagem participa da formação dos personagens. É possível reconhecer uma afinidade com Guimarães Rosa na travessia entendida como experiência de transformação e no encontro entre território e interrogação existencial. A aproximação diz respeito sobretudo ao alcance humano da viagem: os caminhos percorridos modificam aquele que procura compreendê-los. Em Terra Prometida, essa experiência ganha o chão particular do Paranapanema, suas águas, suas memórias e suas disputas.

O título também abre uma interlocução com a tradição bíblica. A promessa de uma terra envolve esperança, deslocamento e responsabilidade, mas sua realização permanece sujeita às contradições humanas. O horizonte de Eclesiastes se faz especialmente fecundo: diante da passagem das gerações e da permanência da terra, as pretensões individuais revelam sua precariedade. 

É nesse campo que a psicanálise de Jacques Lacan oferece uma chave de leitura particularmente expressiva. Ulisses pode ser compreendido como um sujeito dividido entre o que conta sobre si, aquilo que deseja e o que escapa às suas explicações. Suas viagens, lembranças e relações permitem interrogar a expectativa de encontrar, em algum lugar ou em alguém, uma resposta definitiva para a própria existência.

A relação com Alice concentra parte dessa tensão. Sua presença mobiliza fascínio, lembranças e expectativas que excedem o conhecimento que Ulisses efetivamente tem dela. Em uma leitura lacaniana, pode-se aproximar esse movimento da função do objeto a, entendido como causa do desejo. A aproximação ilumina o que Alice põe em movimento em Ulisses, sem esgotar a personagem em um conceito. Ela conserva interesses, iniciativas e contradições que desafiam as imagens projetadas sobre ela.

O romance encontra força justamente na distância entre a pessoa desejada e o lugar que ela passa a ocupar na imaginação de quem deseja. Gestos de cuidado, cenas domésticas e lembranças antigas alimentam vínculos cujo sentido nem sempre está disponível aos personagens. A prosa acompanha essa formação do afeto, permitindo perceber como o presente recebe expectativas vindas de outras experiências.

A convivência com Yael e com os moradores de Mina Viva amplia a questão do pertencimento. A vida coletiva exige escuta, negociação e reconhecimento da autonomia alheia. Nos conflitos em torno da água, essa exigência assume uma forma concreta: quem decide, quem controla os recursos e quem participa dos benefícios? O drama íntimo de Ulisses encontra, assim, uma dimensão social. Sua transformação passa pela capacidade de participar de uma comunidade que possui necessidades e escolhas próprias.

Também cabem aproximações críticas com Amos Oz, pela atenção às ambiguidades dos vínculos e ao encontro entre intimidade e história, e com Ismail Kadaré, pela convivência entre memória, vestígios e acontecimentos cuja compreensão permanece incompleta. São afinidades de leitura, especialmente produtivas para pensar a recusa de explicações totais. Hével, nesse sentido, conserva sua potência como uma presença que atravessa o relato sem se deixar esclarecer por inteiro.

Essa abertura exige participação do leitor. A narrativa oferece indícios, retoma experiências e deixa lacunas que impedem um julgamento confortável dos personagens. Seu ritmo reflexivo favorece quem aceita acompanhar a elaboração de uma experiência, inclusive seus desvios e suas zonas irresolvidas. A dimensão simbólica ganha maior consistência quando permanece ligada à materialidade da vida: uma refeição, uma conversa, o trabalho comunitário, a necessidade de água.

Terra Prometida: A volta de Ulisses articula, dessa maneira, o retorno homérico, a inquietação bíblica e uma investigação do desejo que admite uma leitura lacaniana. Essas interlocuções encontram unidade na trajetória de um homem obrigado a reconsiderar suas expectativas de posse, reparação e completude. A promessa contida no título se transforma ao longo da leitura. Ela passa a envolver a possibilidade de habitar o mundo com suas perdas, reconhecer a liberdade dos outros e assumir os cuidados que tornam possível permanecer.

Compre Terra Prometida: A volta de Ulisses na UICLAP


Henrique Chagas

Henrique Chagas, palestrante, instrutor, mediador de conhecimentos, escritor, advogado e gestor na área jurídica. Cursou pós-graduação em Direito Civil e Direito Processual Civil e fez MBA em Direito Empresarial pela FGV. Leia mais em "Sobre Mim".

0 Comments

Deixe um comentário

Avatar placeholder

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *