Há textos que oferecem respostas. Outros retiram de nós a segurança das respostas que já possuíamos.

Os primeiros ditos do Evangelho de Tomé pertencem a essa segunda espécie. Eles não apresentam uma doutrina organizada nem conduzem o leitor por uma sequência de explicações. São frases breves, imagens e paradoxos que pedem interpretação. Aproximamo-nos deles como quem entra numa região desconhecida: não sabemos exatamente onde o caminho terminará, mas percebemos que não sairemos dele da mesma maneira que entramos.

O manuscrito copta completo do Evangelho de Tomé, encontrado entre os códices de Nag Hammadi, reúne 114 ditos atribuídos a Jesus. Alguns se aproximam de passagens conservadas nos evangelhos canônicos. Outros parecem estranhos ao leitor habituado a Mateus, Marcos, Lucas e João.

Tomé não narra o nascimento de Jesus, seus milagres, a crucificação ou a ressurreição. Seu interesse está nas palavras. E essas palavras não pedem apenas que sejam lidas. Pedem que sejam procuradas por dentro.

Nos sete primeiros ditos, começa a surgir um itinerário: interpretar, procurar, conhecer-se, tornar-se um, aprender a ver, viver sem falsidade e integrar aquilo que pode nos devorar.

Não se trata ainda de uma conclusão. É o começo de uma travessia.

Os sete primeiros ditos de Tomé e a procura pela totalidade do ser
Os sete primeiros ditos de Tomé e a procura pela totalidade do ser

Dito 1: interpretar para não provar a morte

O primeiro dito afirma que aquele que encontrar a interpretação dessas palavras não provará a morte.

A promessa não está dirigida a quem simplesmente lê, memoriza ou repete. Está ligada à interpretação. O texto exige participação do leitor. A palavra permanece fechada enquanto for tratada apenas como uma fórmula exterior.

Não provar a morte” pode receber diferentes leituras. Não precisamos reduzir a expressão a uma promessa de imortalidade física. Em sentido espiritual, ela pode indicar uma transformação da consciência: quem descobre o sentido vivo das palavras deixa de existir apenas na superfície de si mesmo.

A morte, nesse horizonte, não é somente o fim biológico. Pode ser também a vida vivida sem presença do Vivente, sem conhecimento e sem contato com aquilo que somos em profundidade.

O primeiro dito coloca uma chave em nossas mãos, mas não abre a porta por nós.

Dito 2: procurar até ser perturbado

O segundo dito recomenda que aquele que procura não cesse de procurar até encontrar. Acrescenta que, ao encontrar, ficará perturbado e, depois, maravilhado.

A procura verdadeira não confirma necessariamente aquilo que já pensávamos. Em muitos casos, ela desorganiza nossas certezas.

Procuramos esperando encontrar uma resposta que nos tranquilize. Tomé adverte que o encontro pode produzir o contrário. A verdade primeiro perturba porque nos obriga a abandonar imagens, convicções e explicações que se tornaram pequenas demais.

A maravilha vem depois.

Essa sequência é importante: procura, encontro, perturbação e deslumbramento. O caminho espiritual não aparece como fuga do conflito interior, mas como disposição para atravessá-lo.

Encontrar pode significar perder a tranquilidade das respostas que já não conseguem nos sustentar.

Dito 3: o Reino dentro e fora de nós

No terceiro dito, Jesus adverte contra os guias que apontam o Reino como um lugar distante. Se estiver apenas no céu, as aves chegarão antes. Se estiver no mar, os peixes nos precederão.

Então vem a afirmação central: o Reino está dentro de nós e também fora de nós.

O texto desfaz uma separação. O sagrado não está confinado a uma região inacessível nem limitado à interioridade humana. Está dentro e fora. Está na profundidade do ser e, ao mesmo tempo, na realidade que o cerca.

Mas o dito acrescenta uma exigência: conhecer a si mesmo.

Esse conhecimento não é contemplação vaidosa da própria personalidade. É o reconhecimento de nossa origem e de nossa relação com o Pai Vivo. Quem não se conhece permanece na pobreza e se torna essa própria pobreza.

A carência mencionada por Tomé não parece ser material. É a pobreza de quem vive separado de sua fonte, desconhecendo aquilo que carrega e procurando somente fora de si o que também precisa ser reconhecido por dentro.

Conhecer-se, portanto, não significa encerrar-se no próprio eu. Significa atravessá-lo.

Dito 4: a criança e o apagamento da dualidade

O quarto dito apresenta uma imagem desconcertante: um homem idoso perguntará a uma criança de sete dias pelo lugar da vida, e viverá. Depois, afirma que muitos primeiros serão últimos e que se tornarão um.

A idade não garante sabedoria. O homem acumulou anos, experiências e conceitos, mas precisa interrogar aquele que acabou de chegar ao mundo.

A criança de sete dias ainda não construiu as divisões pelas quais organizamos a existência. Não separou completamente o interior do exterior, o corpo da consciência, o eu do mundo. Ela não possui uma resposta racional sobre o lugar da vida. Ela própria permanece próxima do mistério da vida.

O movimento final do dito aponta para a unidade.

Tornar-se um não significa apagar as diferenças ou dissolver a individualidade. Pode significar superar a fragmentação que nos faz viver divididos: aquilo que pensamos contra aquilo que sentimos, aquilo que mostramos contra aquilo que somos, o espiritual contra o material, o sagrado contra a vida comum.

A totalidade não nasce da amputação de uma parte do ser. Nasce quando aquilo que estava dividido encontra uma relação mais profunda.

Dito 5: ver o que está diante dos olhos

“Conhece o que está diante dos teus olhos, e o que te é oculto te será revelado.”

O quinto dito desloca a procura para aquilo que está próximo.

Frequentemente imaginamos que o conhecimento espiritual depende de encontrar alguma coisa distante, secreta ou extraordinária. Tomé começa pelo que está diante de nós. Antes de procurar o invisível, é preciso aprender a ver o visível.

O cotidiano não é um obstáculo à revelação. Pode ser seu primeiro lugar.

Aquilo que está oculto não será alcançado pela fuga da realidade, mas por uma atenção mais profunda àquilo que já se apresenta. Ver, nesse sentido, não é apenas registrar objetos. É perceber relações, movimentos, contradições e sinais que a pressa torna invisíveis.

Talvez muito do que chamamos de oculto permaneça escondido porque ainda não aprendemos a olhar.

Dito 6: a verdade anterior ao rito

No sexto dito, os discípulos fazem perguntas religiosas concretas: devem jejuar? Como precisam orar? Devem dar esmolas? Que alimentos devem observar?

Jesus não apresenta um regulamento. Responde: não mintam e não façam aquilo que odeiam, porque nada permanecerá escondido.

Jejum, oração e esmola eram práticas importantes. O dito não precisa ser entendido como rejeição de todas elas. O que ele questiona é a confiança numa prática exterior separada da verdade interior.

É possível orar e mentir. Jejuar e representar. Dar esmolas e buscar admiração. Observar regras de pureza e permanecer indiferente ao sofrimento do outro.

A resposta conduz os discípulos à coerência. Antes de perguntar qual rito devemos cumprir, talvez seja necessário perguntar quem somos enquanto o cumprimos.

Toda prática espiritual perde seu centro quando serve para esconder de nós mesmos aquilo que não desejamos enfrentar.

O que está encoberto, diz o texto, será revelado.

Dito 7: quem está devorando quem?

O sétimo dito é um dos mais enigmáticos de Tomé. Ele fala de um leão comido pelo homem e de um homem comido pelo leão.

A passagem admite diferentes traduções e interpretações. O texto não explica o que o leão representa. Por isso, qualquer leitura simbólica precisa ser apresentada com prudência.

O leão pode evocar força, violência, desejo, medo, agressividade ou a dimensão instintiva do ser. Em uma possível leitura espiritual, quando o homem come o leão, assimila sua potência. O que era selvagem não é eliminado, mas integrado a uma consciência maior.

Quando ocorre o movimento inverso, a força passa a governar. Aquilo que deveria ser reconhecido e integrado devora o ser humano.

O problema não é a existência do leão.

O problema é não perceber quando começamos a viver dentro dele.

A totalidade não exige que destruamos nossos impulsos, desejos e contradições. Exige que os reconheçamos e encontremos para eles um lugar que não lhes permita dominar tudo o que somos.

O Dito 7 não manda matar o leão. Pergunta quem está transformando quem.

Sete movimentos de uma mesma procura

Lidos em conjunto, os sete primeiros ditos formam um percurso possível.

O primeiro nos chama a interpretar.

O segundo nos ensina a procurar sem fugir da perturbação.

O terceiro conduz ao conhecimento de si e à descoberta do Reino dentro e fora de nós.

O quarto aponta para a unidade capaz de atravessar as divisões.

O quinto ensina a ver aquilo que está diante dos olhos.

O sexto exige verdade entre o gesto exterior e a vida interior.

O sétimo nos coloca diante das forças que precisamos integrar para não sermos devorados por elas.

Esses movimentos se encontram numa questão maior: como deixar de viver fragmentado?

Passamos grande parte da existência separados de nós mesmos. Pensamos uma coisa, sentimos outra e fazemos uma terceira. Construímos uma imagem para os outros e escondemos aquilo que tememos encontrar. Procuramos fora o que não tivemos coragem de reconhecer dentro. Ou nos fechamos na interioridade e deixamos de perceber o Reino espalhado pelo mundo.

A totalidade do ser não é perfeição.

Não é ausência de conflitos, sombras ou contradições. Também não é uma conquista definitiva depois da qual nada mais precisa ser procurado.

Ser inteiro talvez seja conseguir permanecer diante de tudo o que somos sem permitir que uma única parte se transforme no todo.

É acolher a criança e o homem idoso. O conhecimento e o mistério. O interior e o exterior. A espiritualidade e o corpo. A luz e aquilo que ainda não conseguimos iluminar. É reconhecer o leão sem entregar a ele o governo da casa.

O caminho continua

Chegamos apenas ao sétimo dos 114 ditos.

O caminho ainda é longo, e seria precipitado procurar agora uma fórmula capaz de resumir todo o Evangelho de Tomé. Há passagens luminosas, outras difíceis e algumas profundamente desconcertantes. Nem todas concordam facilmente entre si. Nem todas permitem uma interpretação segura.

Seguiremos examinando o texto copta, os fragmentos gregos existentes, as diferentes traduções, os paralelos canônicos e os estudos de pesquisadores. Quando houver divergência, ela será apresentada. Quando uma hipótese não puder ser demonstrada, será tratada como hipótese.

Mas não ficaremos somente na história das palavras.

Perguntaremos também por que algumas delas continuam nos procurando.

Talvez seja essa a primeira revelação de Tomé: a busca pela totalidade não começa quando encontramos todas as respostas. Começa quando já não aceitamos viver afastados das perguntas essenciais.

Quem procura, não cesse de procurar até encontrar.

Continuamos procurando.


Henrique Chagas

Henrique Chagas, palestrante, instrutor, mediador de conhecimentos, escritor, advogado e gestor na área jurídica. Cursou pós-graduação em Direito Civil e Direito Processual Civil e fez MBA em Direito Empresarial pela FGV. Leia mais em "Sobre Mim".

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